O que é a Academia Pública do Porto sem Rothbard?
Faz hoje um mês após o evento Rothbard 100 — 100 Anos de Liberdade, realizado a 27 de Junho de 2026 no Porto, é tempo de fazer um rescaldo. O evento celebrou o centenário de Murray Rothbard e trouxe ideias da Escola Austríaca de Economia para o debate público. Revelou, porém, as dificuldades persistentes em levar estas ideias à academia pública do Porto, nomeadamente à Porto Business School (PBS) e à Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). A resistência à aceitação de um evento que promove a Escola Austríaca e à análise dos seus impactos práticos nas empresas expõe limitações profundas no pensamento dominante nas instituições públicas. Sem Rothbard e sem a tradição austríaca, a academia perde ferramentas analíticas essenciais para compreender o mundo real dos negócios e da inovação.
1. Porque a Escola Austríaca é fundamental no mundo dos negócios
A Escola Austríaca oferece uma base sólida e realista para a gestão e o empreendedorismo, assente na praxeologia de Ludwig von Mises — o estudo da acção humana como ponto de partida. Ao contrário das abordagens positivistas e agregadas da economia mainstream, enfatiza o indivíduo como actor central. Entre os seus contributos destacam-se:
O conceito de mercado livre como processo de descoberta e coordenação espontânea.
A teoria do valor subjectivo dos bens, que contrasta directamente com a teoria do valor-trabalho (marxista) e com a ideia de valor determinado pelo custo de produção. O valor surge da preferência individual dos agentes económicos.
A contestação às teorias “projectivas” ou de equilíbrio perfeito da economia clássica/neoclássica, que ignoram a incerteza, o tempo e o erro empresarial.
No mundo da gestão, estes princípios aplicam-se em áreas como:
Empreendedorismo e inovação — através da visão do empreendedor como descobridor de oportunidades (Kirzner) e criador de valor.
Finanças e investimento — com ênfase no cálculo económico, na poupança e no ciclo económico (evitando bolhas provocadas por políticas expansionistas).
Estratégia empresarial — priorizando a acção humana, a coordenação descentralizada e a crítica à intervenção estatal excessiva
Sem estas ideias, não teríamos o enquadramento teórico robusto para fenómenos como o surgimento de indústrias disruptivas, a importância do risco assumido pelo capitalista ou a compreensão de por que o planeamento central falha. Analisar políticas económicas futuras pelos princípios austríacos permite antecipar distorções (como inflação, mal investimento e ciclos de boom-bust) e defender soluções baseadas em liberdade económica, propriedade privada e responsabilidade individual — essenciais para empresas competitivas e sustentáveis.
2. Porque Rothbard é importante para o mundo dos negócios?
Murray Rothbard vai além da economia pura e constrói uma visão integrada de ética, direito e economia. Para o mundo empresarial, o seu contributo é particularmente relevante na teoria do empreendedorismo. Rothbard destaca o papel central do empreendedor capitalista/financiador no processo de inovação: não é mero intermediário, mas um actor essencial que assume riscos, aloca capital escasso e impulsiona o progresso técnico e económico. A sua análise do financiamento, da poupança e da crítica ao intervencionismo estatal mostra como o modelo de mercado livre permite um sistema de inovação mais eficiente e moralmente coerente, baseado na propriedade privada e na troca voluntária. Sem Rothbard, perderíamos esta integração profunda entre ética da liberdade e prática empresarial, que inspira gerações de empreendedores a defenderem a sociedade de mercado.
3. O Rothbard 100: o que nos trouxe para reflexão?
O evento, organizado por entidades como a Cataláxia Editora, Mises Portugal e outros, reuniu palestrantes nacionais e internacionais de alto nível (incluindo Hans-Hermann Hoppe e Stephan Kinsella) no Auditório Francisco de Assis. Os vídeos das palestras estão disponíveis no canal de YouTube da Cataláxia Editora e oferecem ricas reflexões.
Destaques incluem as reminiscências pessoais de Hoppe sobre os obstáculos e surpresas no caminho para o rothbardianismo, enfatizando a coerência e radicalidade do pensamento de Rothbard. Outras intervenções abordaram temas como a ética da liberdade, os fundamentos jurídicos de uma sociedade livre (com o lançamento da obra de Kinsella pela Cataláxia), a defesa da propriedade para a redução de conflitos entre estados e governos, o papel do governo na moeda, oBitcoin como um meio transaccionºavel de estabilidade e confianã, as lições para o empreendedorismo, os benefícios de uma sociedade em concorrência e as dinâmicas dos monopólios pela liderança (em contraponto aos monopólios criados ou protegidos pelo Estado). Abordou-se ainda como a estética e a arte têm perdido valor pela ausência de uma estabilidade monetária de referência.
As palestras reforçaram a actualidade de Rothbard para enfrentar os desafios do estatismo contemporâneo, inspirando uma reflexão sobre como levar estas ideias para o mundo académico e empresarial do nosso país. O evento demonstrou a vitalidade do movimento e o potencial de diálogo construtivo.
4. A Miopia da Academia
A rejeição inicial ou dificuldade em acolher o evento nas instalações da academia pública do Porto (roçando o boicote, pela cronologia e sucessivas recusas) revela uma visão curta. Argumentos de que se tratava de um “evento de cariz político” ignoram que as teorias económicas sempre antecederam e fundamentaram as posições políticas — e não o inverso. A academia portuguesa, particularmente nas áreas de economia e gestão, permanece agarrada a paradigmas keynesianos e intervencionistas, muitas vezes alinhados com uma visão favorável ao papel expansivo do Estado. Como é possível que a Porto Business School ofereça cursos de empreendedorismo e de marketing de luxo, mas rejeite estudar as origens intelectuais desses fenómenos? Não compreendem que, sem a Escola Austríaca, não teríamos nomes de prestígio na PBS como o Prof. Carlos Brito e o Dr. António Paraíso? Que dirão estes professores ao verem que os seus conhecimentos não têm espaço real dentro da instituição e servem apenas como artefactos para vender cursos e iludir “novos gestores”? O mesmo se aplica à Faculdade de Engenharia da UP, nomeadamente ao INESC, que recorre a eventos como o Deep Tech Academic Spin-offs e o Pitch Day — Escola de Startups. Sem Rothbard e a Escola Austríaca, o investidor não seria reconhecido como elemento integrante da inovação. Esta postura reflete um ambiente ideológico que resiste a ideias concorrentes. O actual reitor da Universidade do Porto, Pedro Nuno Teixeira (eleito em 2026, professor catedrático de Economia na FEP e ex-Secretário de Estado do Ensino Superior), tem um percurso ligado a políticas públicas do ensino superior em governos socialistas, o que ilustra a continuidade de certas orientações dominantes.
Sem Rothbard, a Academia Pública do Porto arrisca-se a permanecer fechada a ferramentas analíticas que poderiam enriquecer o ensino de gestão, engenharia económica e inovação empresarial, principalmente em tempos que as temáticas da produtividade e inovação se tornam prioritárias para quem se quer mostrar competitivo ao nivel internacional. O desafio está em abrir portas ao debate plural, permitindo que estudantes e professores confrontem ideias que já provaram o seu valor no mundo real dos negócios. Em suma, integrar a tradição austríaca e rothbardiana não é uma questão ideológica — é uma questão de rigor intelectual e de preparação para o futuro económico. O Rothbard 100 foi um passo importante; resta agora à academia do Porto decidir se quer fazer parte dessa reflexão ou continuar presa ao passado.



